Solitude x solidão (parte 2)


Solitude x Solidão

Texto escrito e publicado por Karina em seu site: Inconsciente coletivo, apenas tomei liberdade de copiá-lo.

Somente a palavra “solitário” imediatamente lembra a você de que é algo como um machucado: algo é necessário para preenchê-lo. Há uma lacuna e ela dói: algo precisa preenchê-la. A própria palavra “solitude” não possui o mesmo sentido de um machucado, de uma lacuna que precisa ser preenchida. Solitude simplesmente significa completude. Você é um todo; não há necessidade de nenhuma outra pessoa para completá-lo.

Portanto tente encontrar o seu centro mais íntimo, onde você está sempre sozinho, sempre esteve sozinho. Em vida, em morte – onde estiver você estará sozinho. Mas é tão cheio – não é vazio, é tão cheio e tão completo, tão transbordante de todas as essências da vida, com todas as belezas e bênçãos da existência, que uma vez que você tenha experimentado a solitude a dor no coração irá desaparecer. No lugar dela, um novo ritmo de tremenda doçura, paz, alegria, felicidade estará lá.

Isto não significa que um homem que está centrado em sua solitude, completo em si-mesmo, não possa fazer amigos – na verdade, somente ele pode fazer amigos, por que não é mais uma necessidade, é somente um compartilhamento.  Ele tem tanto, ele pode compartilhar.

A amizade pode ser de dois tipos. Uma é a amizade em que você é um pedinte – você precisa de algo do outro para ajudar a sua solidão – e o outro também é um pedinte, ele quer o mesmo que você.  E naturalmente, dois pedintes não podem se ajudar. Em breve eles perceberão que seus pedidos de um pedinte duplicaram ou multiplicaram a sua necessidade. Ao invés de um pedinte, agora são dois. E se, infelizmente, tiverem crianças, então ali haverá uma companhia completa de pedintes que estão pedindo – e ninguém tem nada a dar.

Então todos estão frustrados e bravos, e todo mundo sente que foi traído, enganado.  E na verdade, ninguém está traindo e ninguém está enganando, pois o que você tem?

O outro tipo de amizade, o outro tipo de amor, possui uma qualidade totalmente diferente.  Não é de uma necessidade, ele vem do enorme tanto que você tem que quer compartilhar. Um novo tipo de alegria brotou no seu ser – a do compartilhamento, que você antes não estava consciente. Você esteve sempre pedindo.
Quando você compartilha, o apego é impossível. Você flui com a existência, com a mudança da vida, por que não importa com quem você compartilha. Pode ser a mesma pessoa amanhã – a mesma pessoa por toda a sua vida – ou podem ser diferentes pessoas. Não é um contrato, não é um casamento; é somente a partir da sua plenitude que você quer dar. Então independente de quem seja que esteja perto de você, você dá. E dar é uma grande alegria.

Pedir é uma miséria tão grande. Mesmo que você consiga alguma coisa pedindo, você irá permanecer miserável. Isso machuca. Isso machuca o seu orgulho, machuca a sua integridade. Mas compartilhar o faz ficar mais centrado, mais orgulhoso, mas não mais egoísta – mais orgulhoso de que a existência tem sido mais compassiva com você. Não é ego; é um fenômeno totalmente diferente… um reconhecimento que a existência permitiu a você algo que milhões de pessoas têm tentado, mas na porta errada. Você esteve na porta certa.

Você está orgulhoso de sua felicidade e por tudo que a existência deu a você. O medo desaparece, a escuridão desaparece, o sofrimento desaparece, o desejo por outros desaparece.

Você pode amar uma pessoa, e se a pessoa amar outra não haverá ciúme algum, porque você amou a partir de tanta alegria. Não era um apego. Você não estava segurando a pessoa na prisão. Você não estava preocupado que a pessoa poderia escapar pelos seus dedos, que alguém poderia começar um relacionamento amoroso…

Quando você está compartilhando a sua alegria, você não cria uma prisão para ninguém. Você simplesmente dá. Você sequer espera gratidão ou agradecimento por que você não deu para receber algo, nem mesmo gratidão. Você está dando por que está tão cheio que precisa dar.

Então se alguém for agradecido, você é agradecido a pessoa que aceitou o seu amor, que aceitou o seu presente. Ela aliviou você, ela permitiu que você a regasse com sua abundância. E quanto mais você compartilha, quanto mais dá, mais você tem. Então isso não faz você um avarento, não cria um medo de “eu posso perder isso”. Na verdade, quanto mais você perde, mais águas frescas irão fluir de fontes que você não tinha consciência antes.

Por isso eu não vou dizer nada para você fazer com a sua solidão.

Procure por sua solitude.

Esqueça a solidão, esqueça a escuridão, esqueça o sofrimento. Eles são apenas as ausências da solitude. A experiência da solitude irá dispersá-los instantaneamente. E o método é o mesmo: apenas observe a sua mente, seja consciente.  Se torne mais e mais cônscio, até que finalmente você seja somente consciência de si-mesmo. Este é o ponto quando você se torna consciente de sua solitude.

Você ficará surpreso que diferentes religiões deram nomes diferentes ao estado último da realização. As três religiões nascidas fora da Índia não possuem um nome para isso porque nunca foram longe na busca do si-mesmo. Elas permaneceram infantis, imaturas, apegadas a um Deus, apegadas à oração, apegadas a um salvador. Você entende o que eu quis dizer: elas são sempre dependentes – algum outro irá salvá-las.  Elas não são maduras. Judaísmo, Cristianismo, Islamismo – elas não são nem um pouco maduras e talvez seja essa a razão de terem influenciado a grande maioria do mundo, por que a maioria das pessoas do mundo são imaturas. Elas têm uma certa afinidade.

Mas as três religiões da Índia têm três nomes para esse estado último.  E eu lembrei disso por causa da palavra solitude. O Jainismo escolheu kaivalya, solitude, como o estado último do ser. Assim como o Budismo escolheu nirvana, não-ser, e o Hinduísmo escolheu moksha, liberdade, o Jainismo escolheu a solitude absoluta. Todas as três palavras são belas. São três aspectos diferentes de uma mesma realidade. Você pode chamar de liberação, liberdade; você pode chamar de solitude; você pode chamar de não-ser, nada – são somente indicadores diferentes em relação à última experiência para qual nenhum nome é suficiente.

Mas sempre procure ver se qualquer coisa que você estiver enfrentando como um problema é algo negativo ou algo positivo. Se for algo negativo, então não lute contra; não se preocupe nem um pouco com isso. Somente procure pelo positivo do problema, e você estará na porta certa.

A maioria das pessoas perde por que elas começam a brigar diretamente com a porta negativa.

Não existe porta; há somente escuridão, há somente ausência. E quanto mais elas brigam, mais encontram fracasso, mais se tornam deprimidas, pessimistas… e finalmente passam a achar que a vida não tem sentido, que é simplesmente tortura. Mas o seu erro é que entraram pela porta errada.

Então antes de enfrentar um problema, apenas olhe para ele: é a ausência de alguma coisa? E todos os seus problemas são a ausência de alguma coisa. E uma vez que você tenha encontrado a ausência de que eles se originam, então vá atrás do positivo. E no momento que você encontrar o positivo, a luz – a escuridão se foi.

The Path of the Mystic, capítulo 19.

Comentários

Postagens mais visitadas