O ano da fênix



É muito difícil lidar o tempo todo com pessoas doentes e enfermas e quase nada poder fazer por elas, quem trabalha na área de comércio que envolve saúde deve imaginar do que estou falando... E acredito que tenha sido assim que desde 2014, venho perdendo toda e qualquer motivação no trabalho que um dia cheguei a  amar; são políticas que favorecem sempre a dependência medicamentosa do doente ao invés da prevenção ou da cura. 2017, que deveria ser apenas mais um ano comum, fui demitido e fiquei desempregado pela primeira vez em doze anos de profissão; abandonei amizades que imaginava, nunca chegariam ao fim; negligenciei minha família; e ainda assisti minha namorada (ou assim achava que era) desistir de mim ao escolher outro homem. Sem perceber havia construído os pilares da minha vida em terrenos sombrios: Um relacionamento utilitarista com muitos palpiteiros nos bastidores pressionando por resultados, prazos e metas; hobbies que me distanciam cada dia mais de vínculos sociais; empregos que me tiravam toda a fé nas pessoas e na profissão farmacêutica; falta de comprometimento com minha família; falta de comprometimento com meus amigos e o pior, comigo mesmo...


Foi assim que comecei 2018, sem razão nenhuma para soltar fogos de artifícios, cheio de mágoas e ressentido. Me vejo novamente subindo em minha torre da solidão para o que promete ser o mais longo período de vigília; o canto mais sagrado dentro de meu ser está imerso em escuridão; sem motivação para significar qualquer coisa que em outros momentos pareceram sólidas. Passei a ser atordoado pela dor e falta de sentido e não raramente surgem inúmeros questionamentos sobre meu rumo, sobre mim e sobre o presente, o futuro se tornou algo intangível em tempos como este.


Mais uma vez vestindo uma carapaça quase impenetrável noto que o sofrimento é realmente  avassalador, porém, muito democrático; destrói egos poderosos e desmonta um orgulho convicto, faz ruir a nada todas nossas crenças. Grandes gênios da humanidade eram considerados sofredores, van Gogh, Lutero, Newton, Nietzsche... Talvez, como diria Kalil Gibran, seja aquele sentimento que assim como o amor, apara dolorosamente nossas  arestas eliminando os excessos, dando origem a algo mais rústico, embrutecido e resistente. 


Estando longe de qualquer ombro amigo e confiável, desesperado por qualquer conforto, acabei me voltando para o que havia de mais próximo, colegas de trabalho e até clientes da farmácia onde trabalho, em um dos piores picos de dor cheguei a ser abraçado por uma completa desconhecida, subitamente voltei a ser uma criança desprotegida e assim e chorei como no dia da morte de minha mãe. Foi nesta desolação que uma colega de trabalho me lembrou de muitas passagens bíblicas que mostram que o servo que sofre e sai vitorioso, recorre ao pai mesmo diante da morte, mesmo diante o pior momento ou da completa desesperança. Até mesmo Jesus, teve sua coragem esvaída, a perseverança passou a não existir, quando se encerrou a temporada da paciência e o respeito à vida já não fazia mais sentido, caiu numa desolação sem tamanho, mas fixou-se naquilo que seu Pai representava e na segurança daquilo que ele havia dito.


Chega a soar estranho, pelo meu momento sombrio, mas o sofrimento não é de todo mal, como diria karnal ou Cortella, chega a ser até um privilégio, pois é através dele que aquietamos o ego e assim ficamos mais fortes, mais sábios, mais amáveis, desenvolvemos mais compaixão e empatia; nos despimos de preconceitos e dogmas; passamos a entrar em novos níveis de consciência que antes não estavam acessíveis; o coração fica mais forte para encarar novas experiências. Praticamente tudo o que tinha ficou bem longe no espaço-tempo, conforto, segurança, afetos e certezas... Felizmente descobri que é tempo de rever valores e crenças e não me sentenciar severamente por coisas inevitáveis que não tenho culpa, só quem sofre tem chance de verdadeiramente se conhecer e/ou se redescobrir. Como diria Rubem Alves com uma pitada de humor, só vira pipoca quem passa pelo fogo. Quem nunca passar pelo fogo, será sempre milho...


Como minha colega de trabalho me falou, Deus parece escolher amar mais os sofredores. Ainda citando as escrituras sagradas, estar abatido é uma condição comum das pessoas que Deus mais se utilizou. Parece-me que sou muito amado então... Quem sabe o que ainda está por vir, que obras posso fazer... como serei usado nos planos divinos... 



Talvez devesse doravante apenas respirar fundo todas as manhãs e confiar em Deus, talvez assim as coisas aconteçam sem eu nem esperar, pois como bem sabemos, tudo acontece no seu devido tempo. Tempo aliás que passa e não adianta perdê-lo com insatisfações, com frustrações, com ilusões, por isso, aquilo que mais desejo neste ano que começa, é poder ter a sabedoria e paciência para aprender a conhecer um Deus bondoso, verdadeiro e justo, não um deus com "d" minúsculo pregado e caricaturado das igrejas, puramente utilitarista e obscuro em suas interpretações. Dizem que só ele nos traz as mudanças que almejamos, nunca cedo demais, nunca tarde demais, na hora exata em que estamos realmente preparados para recebê-las.


 
"Solitário, tu segues o caminho que a ti próprio conduz. E nesse caminho encontrar-te-ás a ti próprio, e aos teus sete demônios.
Sentir-te-ás herético e feiticeiro e adivinho e louco e céptico e sacrílego e malfeitor aos teus próprios olhos.
Ser-te-á necessário consumires-te na tua própria chama; como poderias nascer de novo, se não te houvesses consumido primeiramente?
Solitário, tu segues o caminho dos criadores..."

Do caminho do criador 
Assim falou Zaratustra





Talvez seja hora de assim como a lendária ave fênix, renascer das próprias cinzas...



Que 2018 nebuloso...


Mas
seja o que Deus quiser!



Comentários

  1. Fique tranquilo você esta se esvaziando do externo ilusório . Não existe dualidade em Deus, ele esta em você e você já começou a perceber esse preenchimento maravilhoso.

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