Os tijolos em nossa alma

 


Lendo e relendo cidadela (1948), que é um livro inacabado, mal traduzido e uma leitura difícil... não tenho como deixar de lembrar meus passos neste mundo.

Que tal tentar viver por puro racionalismo, sem essas crenças e religiosidades de modinha e um belo dia dar de cara com este parágrafo:


"Morada dos homens, quem te fundaria sobre o raciocínio? Quem seria capaz, segundo a lógica, de te edificar? Existes e não existes. És e não és. És feita de materiais díspares, mas é preciso te inventar para te descobrir. De mesmo modo que aquele que destruiu sua casa com a pretensão de conhecê-la, não consegue mais que um monte de pedras, tijolos e telhas, não encontra nem sombra nem silêncio nem intimidade para o que elas serviam, e nem sabe qual serviço esperar desse monte de tijolos, pedras e telhas, pois falta-lhe invenção que os domine, a alma e o coração do arquiteto. Pois falta à pedra a alma e o coração do homem."


Ou ainda esta pequena frase que mais parece um aforismo:


"A alma e o coração escapam às regras da lógica e às leis dos números."


Pois é, deu para perceber que se trata de uma leitura poderosa e para lá de imersiva; e, talvez não apenas das páginas do livro, mas das dores mais profundas que carregamos ao viver, amar e perder, os trechos a seguir refletem as mais profundas dores que habitam esta alma que aqui vos escreve (inclusive, a maior delas, hoje faz aniversário):


"Embora a morte e a vida se oponham uma a outra, como palavras que são, o certo é que só podes viver daquilo que te pode fazer morrer. E o que recusa a morte, recusa a vida. Se não houver nada acima de ti, não tens nada a receber. A não ser de ti próprio. Mas que hás-de tu ir buscar a um espelho vazio?" 


"Aquilo que te causa os sofrimentos mais graves, traz-te também as maiores alegrias. Porque sofrimentos e alegrias são frutos dos teus laços, e os teus laços, das estruturas que te impus. Eu cá quero salvar os homens e obrigá-los a existir, ainda que os leve pela via que faz sofrer, como a prisão que separa da família, ou o exílio que separa do império."


"O essencial do círio, por exemplo, não é a cera que deixa, mas sim a luz que liberta."


"Aquilo que verdadeiramente importa, não se encontra entre as cinzas."


"Ao morrer levava, sem se dar conta disso, as mãos cheias de estrelas."


Então, depois saber que alguém leu este desabafo meio que sem pé nem cabeça (apenas para quem não sabe o que a data de hoje significa), saibam que certamente estarei chorando muito, mas até para este sentimento o livro cidadela tem uma frase:


"Havia um quarto vazio, que nunca ninguém soube para que servia – e que talvez não servisse para nada, a não ser para fazer ressaltar o sentido do segredo e para dar a entender que nunca é possível desvendar todas as coisas."

Comentários

Postagens mais visitadas